Porque arde Portugal?

Porque arde Portugal?

– Reflexões e possíveis soluções-

 A pergunta que não se quer calar e que infelizmente continua tão actual como em 2017, ano dos fatídicos incêndios de Junho e Outubro onde se contabilizaram 111 mortos oficiais, cerca de 320 feridos, perto de 500 mil hectares ardidos e centenas de milhões de euros em prejuízos.

Pedrogão Grande 2017, Reflorestar Portugal

Por parte do Estado, além da falta de apoio humanitário e um parco e burocrático apoio às vítimas, em 2018 entrou em vigor a actual lei de limpeza das florestas, que arrasou com toda a vegetação que estivesse próxima a casas e estradas. Numa postura de ameaça e multas altíssimas, o Estado promoveu uma desflorestação em larga escala em nome da segurança dos portugueses e portuguesas, o que não provou ser uma solução eficaz. Continuam até hoje os incêndios de larga escala e várias questões de fundo não foram resolvidas.

Este tema tem muitas vertentes que podem ser abordadas. No presente texto não vou entrar em detalhes sobre o combate a incêndios, como seria a dignificação da profissão de Bombeiro, a contratação de Guardas Florestais, a activação do Exército para combate a incêndios ou a melhoria da capacidade de resposta por parte da proteção civil.

O ordenamento do território é aqui peça chave e nele devem-se promover e prever áreas florestais descontinuadas, biodiversas e estratificadas que sirvam também a produção alimentar (agroflorestas), com melhores acessos e mais pontos de água. No entanto, a maior parte da floresta está em área privada, o que, juntamente com a problemáticas dos minifúndios e a falta de registo actualizado de propriedade, dificultam a coordenação de esforços nesse sentido. A necessidade de mais educação para a regeneração ambiental e sensibilização para formas de prevenção de incêndios é fundamental para o imediato das políticas públicas. 

Ecológicamente esta é uma questão extremamente complexa, pois a degradação dos ecossistemas portugueses é centenária, o que tem levado à quebra e desregulação dos ciclos da água e dos nutrientes ao longo de centenas de anos, causando a perda de habitats e, como consequência, a extinção de muitas espécies vegetais e animais.

Hoje existe, provavelmente, cerca de 5% de floresta nativa em Portugal, apesar dos dados oficiais afirmarem que é ligeiramente superior (10 -15% da área “florestal”).  Isto é preocupante pois se não forem feitos reais esforços de recolha e preservação de sementes, para que haja um plano de regeneração e reflorestação em larga escala, em breve será quase impossível resgatar a nossa biodiversidade.

Montado, 2019

A incompreensão e a falta de relação com os ciclos naturais, preconizada em práticas agrícolas e florestais altamente danosas, têm levado à degradação dos solos, como é disso exemplo a gradagem, o uso abusivo e descontrolado de químicos, as monoculturas e as queimadas.

O montado é uma das vítimas da gradagem da terra. O Sobreiro é uma árvore que depende imensamente das raízes superficiais e de relações simbióticas com os microorganismos do solo e com outras plantas. Tudo isso é rompido com a grade que passa rasgando o chão, nos dias de hoje num ritmo anual, predispondo estas árvores a doenças, pois a sua nutrição é enfraquecida.

Tal como no corpo humano, também na floresta e na horta é preciso promover o bem-estar e a saúde, evitando doenças, prevenindo-as através do fortalecimento do organismo vivo que ela é, composto por várias relações entre plantas, animais, insetos e microorganismos que formam um ecossistema.  Este é também um dos problemas do uso de químicos, pois eliminam a diversidade de formas de vida que são importantes para o equilíbrio de áreas agrícolas e florestais, contaminando a água e degradando os solos, que por isso diminuem a sua permeabilidade e consequentemente retêm menos água, tornando o meio mais propenso a incêndios.

Agrofloresta com 34 meses de desenvolvimento, em zona afectada pelos incêndios de 2017; Reflorestar Portugal 2020

Infelizmente, o Estado português tem promovido e apoiado que a população faça queimadas após as limpezas dos seus terrenos. Essa prática, além de representar a queima de carbono (madeira é composta principalmente de carbono) e por isso contribuir para as taxas de emissão de CO2 do nosso país, representa também a perda da maior fonte de nutrição dos nossos solos, através da queima, sendo que um dos maiores déficits nutricionais do solo português é a baixa percentagem de matéria orgânica. Ou seja, para se criar um solo rico e vivo é necessário folhas, madeiras, restos de cascas e até corpos de animais que se decomponham no local, promovendo a presença de fungos e outros microorganismos que disponibilizam nutrientes para a saúde das plantas. Se esses troncos e folhas são queimados em vez de voltarem novamente para o solo, estamos a promover o desgaste dos solos, a aumentar a sua compactação e consequente erosão. Com o tempo tornar-se-á difícil que alguma coisa consiga crescer, levando o país no caminho da desertificação, pois em solos degradados, como referido acima, não existe infiltração de água e portanto os lençóis freáticos também não são preenchidos.

Esta questão dos incêndios e das políticas de limpeza das florestas tem impactos sistémicos, que precisam ser avaliados com bastante detalhe, pois poderá comprometer o abastecimento de água das populações em quantidade e qualidade. Portanto, o conceito de “Floresta limpa” é altamente prejudicial para o equilíbrio da floresta e em vez de a tornar mais resiliente a incêndios, como é da opinião de alguns, promove o oposto, pois diminui a retenção de água, diminui a biodiversidade, elimina a matéria orgânica, impede a regeneração natural e com isso promove que prosperem as plantas pioneiras (herbáceas), que são de crescimento rápido e ciclo de vida curto e mais inflamáveis. Como consequência, estará o envelhecimento da floresta pois, junto com os “matos”, são cortadas também as pequenas árvores do futuro.

Pedrogão Grande: Eucaliptos ardidos em 2017. Foto de 2020, Reflorestar Portugal

Em 30 anos de UE, 30% das explorações agrícolas desapareceram e agora somos o 5° maior produtor mundial de eucalipto, o maior Europeu. O eucalipto é a espécie florestal predominante, com 25,4% da ocupação, equivalente a 812 mil hectares e, o seu principal uso, é a produção de pasta de papel, sobretudo para produzir papel higiénico.

O eucalipto, quando plantado em conjunto com uma diversidade de espécies, por ter um rápido crescimento, pode ter uma função benéfica na regeneração de ecossistemas degradados, ajudando a produzir bastante biomassa e assim alimentar outras plantas mais lentas. No entanto, da forma como é plantado em Portugal, em monocultura e mono estratificada (todas as árvores no mesmo “andar” da floresta) torna-se um “parque de diversões” para o fogo, pois é uma árvore altamente inflamável e tem uma força de rebrote muito grande depois de um incêndio, abafando a possível regeneração natural que possa acontecer no local, pois é muito mais rápida e eficaz a crescer com poucos recursos. 

Obviamente que esta quantidade de Eucalipto só existe em Portugal porque há quem faça muito dinheiro com ele, no entanto existem formas bastante mais rentáveis e seguras de podermos explorar o nosso território. 

A indústria da polpa e pasta de papel é o 5° maior consumidor mundial de energia (com 4% do total mundial), utiliza mais água por tonelada de material produzido do que qualquer outra indústria no planeta e 40% do papel de escritório acaba em aterros. O linho e o cânhamo têm sido usados para fazer papel há milénios, sendo fibras rapidamente renováveis e que necessitam, em média, 43,69% menos energia do que papel de polpa virgem. 93% do papel produzido no mundo são-no a partir de madeira.

“As árvores são compostas por apenas 30% de celulose. Os outros 70% têm de ser removidos através de químicos tóxicos, até que a celulose se transforme em papel. Quanto mais celulose uma planta tiver, melhor, porque menos químicos terão de ser usados e dá menos trabalho. Quase qualquer planta com um caule forte pode ser melhor para fazer papel do que árvores, e especialmente o cânhamo, porque pode ser até 85% de celulose. Segundo os especialistas e investigadores, 1 ha de cânhamo produz tanta pasta de papel num ano como 1 ha de eucaliptos em de 4 a 10 anos. O papel de cânhamo também não envolve nenhum branqueamento e, por isso, não envenena as águas com cloro ou dioxinas como as fábricas de papel fazem. O cânhamo tem outra vantagem muito significativa: cria uma quantidade enorme de matéria verde numa época de crescimento de apenas 4 meses e poderia suprir todas as necessidades de papel e fibra do planeta.

Em Portugal grandes projetos de multinacionais têm sido aprovados nos últimos anos, mas os pequenos produtores ainda são penalizados e vêm por vezes as suas produções destruídas pelas autoridades.” (trecho retirado do artigo: “Cânhamo e Eucalipto Política Florestal” de Manuel Trindade Coelho)

O cânhamo é a planta milagre da nossa era, respirando 4x mais dióxido de carbono do que as árvores durante o seu rápido ciclo de 12-14 semanas. As árvores levam 20 anos para maturar vs 4 meses para o Cânhamo Industrial! As nossas florestas estão a ser cortadas 3x mais rápido do que podem crescer! Um acre de cânhamo produz tanta polpa de fibra de celulose como 4,1 acres de árvores! (Dewey & Merrill. Bulletin #404. U.S. Dept. of Age. 1916)”

A especulação imobiliária e a desvalorização do preço da madeira em zonas ardidas é também um motivo de preocupação em relação à origem e motivações de incêndios. Existem, também, evidências que nos levam a crer que haja exploração económica em torno do combate aos incêndios, como por exemplo o aluguer de hidro-aviões. Assim a reavaliação da legislação em volta do crime de fogo posto e a fixação do preço da madeira queimada é fundamental, pois na sua maioria os incêndios florestais devem-se a causas humanas, voluntárias ou negligentes (REBELO, 2010).

Existem neste momento pedidos de exploração de minério de lítio em 70% do território português, incluindo zonas de proteção ambiental e zonas classificadas pela Unesco como património da humanidade. Muitas delas, a maioria, coincidentes com zonas que arderam nos últimos dois anos.

O lítio é um metal de grande interesse para a produção de baterias, muitas direcionadas para veículos elétricos tidos como “ecológicos e sustentáveis”, no entanto o que a maioria das pessoas ignora é que todo o lítio que já foi extraído até hoje é mais do que suficiente para satisfazer as necessidades energéticas se ele for corretamente reaproveitado. No seu processo de extração as minas de lítio deixam enormes e irreversíveis crateras na paisagem, utilizam grandes quantidades de energia e água, contaminam as águas com subprodutos radioativos e, além disso, têm um tempo finito de exploração. Portanto, a maioria dos postos de trabalho gerados, além de serem de alto risco, são também de curta duração. Nenhuma energia que dependa de exploração de recursos não renováveis em larga escala, que coloque em risco a saúde dos trabalhadores e populações, que degrade o meio ambiente e contamine lençóis freáticos pode ser considerada sustentável. 

Infelizmente, existe na sociedade um desconhecimento profundo sobre a forma de extração e a procedência das matérias primas utilizadas para sustentar o estilo de vida moderno.

Até ao momento haverá um investimento feito de mais de 160 milhões de euros na canábis medicinal em Portugal com a criação de 750 postos de trabalho, sendo que existem apenas 2 ou 3 empresas multinacionais que já têm licença para produzir e exportar. Apenas no ano de 2018 os estados americanos que produzem Cannabis medicinal arrecadaram entre 7 milhões e 600 milhões de dólares e, aqueles estados que legalizaram o uso recreativo, arrecadaram de 17 milhões a 2,75 mil milhões de dólares.

A possibilidade de lucro e rentabilidade neste mercado é tremenda, não precisamos de plantações de eucaliptos nem de extrações de lítio para dizer que somos um país industrializado. É necessário sim que a população portuguesa e empresas nacionais possam ter acesso a licenças de produção e que estes negócios, assim como outros negócios locais com produtos nacionais, como por exemplo a aguardente de medronho, que provém de um arbusto pouco inflamável, sejam fomentadas. Não podemos permitir que, mais uma vez, o monopólio de empresas estrangeiras tenha tais benefícios sem que haja uma arrecadação real por parte do Estado português e sem que este privilegie as empresas e empreendedores nacionais.

Agrofloresta em desenvolvimento em terreno ardido em 2017
Reflorestar Portugal, Pedrogão Grande 2020

Outra questão fulcral na resposta ao mote deste texto é o facto do interior do país estar abandonado e em processo de desertificação. Urgem políticas de apoio e fixação de pessoas no território rural. As cidades estão em sobre-lotação e o campo não tem agricultores suficientes para as alimentar. Neste momento, em Portugal, importa-se pelo menos um terço do total de alimentos que consumimos. Estes são alimentos com pegadas ecológicas tremendas, pouco frescos e por isso com menor valor nutricional. O investimento na regeneração dos solos através de práticas agroecológicas e agroflorestais é fundamental para que o interior possa voltar a ser produtivo, para que as pessoas se liguem novamente a um estilo de vida saudável e gratificante e, acima de tudo, fundamental para o combate às mudanças climáticas que já mostram ter um impacto fortíssimo no nosso país e no mundo.

A floresta é a melhor tecnologia para regular o clima, mantendo a temperatura dentro de limites habitáveis, promove a retenção de água no território, conduz ao aumento da precipitação e permite a diversidade de vida que suporta a exigência nutricional do ser humano. As agroflorestas são formas de produzir alimento enquanto se restaura o meio ambiente e se permite que as florestas voltem a nascer. Agroflorestemos Portugal.  

Marina Pacheco Nobre

Especialista em Medicina Tradicional Chinesa, Permacultora e Agroflorestora

Co-Fundadora e Co-Coordenadora da Reflorestar Portugal

(todas as imagens da Reflorestar Portugal)

Artigo originalmente publicado na Raízes Magazine nr 7 (2019):

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1 Comment

  1. Era interessante abordar a temática do combate versus o risco actual e futuro. Não coloquem por favor o exército nesta equação, é um erro crasso. Existe um projecto e solução para mitigar o risco em que vivemos na matéria talvez mais pertinente da nossa sociedade. Os incêndios.

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